O Bloco de Esquerda teve o maior crescimento de todos os partidos nas legislativas de domingo, duplicando o seu grupo parlamentar, de 8 para 16 deputados. Mas se a noite começou extremamente doce para o BE, acabou com um travo amargo. Começou com previsões de 18 a 20 deputados, estatuto de terceira maior força política à frente da CDU mas também do CDS/PP e a capacidade de fazer maioria absoluta com o PS. Acabou com “apenas” 16 deputados confirmados, inúteis para viabilizar/fazer cair um governo, e um resultado final a fixar-se nos 9.9 por cento, com o CDS/PP a ultrapassa-los e a ultrapassar os dois dígitos.
Talvez isto tenha sido o melhor que podia acontecer ao BE: se o eleitorado tivesse oferecido aos bloquistas o ónus de viabilizar/fazer cair um governo acabariam por deixar sempre descontente parte do seu eleitorado. Se suportassem no parlamento o governo do PS e a sua “política de Direita” seriam acusados de pactuarem ou mesmo de se tornarem iguais aos que criticavam. Se, pelo contrário, recusassem suportar o governo seriam acusados da irresponsabilidade ou de entregarem o PS nos braços dos partidos da Direita. Assim, podem continuar a fazer oposição à vontade e alimentar a esperança de crescer ainda mais à custa do PS.
Com este resultado o BE fica impossibilitado de usufruir de todos os prazeres de ser um partido maior, arredado das questões de poder, mas mantêm a virgindade intacta. Uma eventual “menage a trois” com o PS e a CDU, para viabilizar uma ou outra medida, será sempre tão fugaz, tão cheia de sentimentos de culpa para todos os intervenientes, que é sempre possível proclamar que não se chegou a vias de facto.
ap
P.S. – Comentário da a2 ao ler este post: é uma visão muito PS, nem parece que votaste no BE. Precisão minha (ou, como se costuma agora dizer, declaração de interesses): votei no BE.





