O Dr. Almeida Santos, “83 anos. Político e advogado”, deu uma entrevista ao Jornal Sol, publicada na edição nº 150 de 24 de Julho intitulada “Tive algum êxito junto das moças mas nunca fui um galã”, onde disserta sobre vários assuntos desde o futebol, à arte ou à homossexualidade.
Nesta posta apenas abordarei as suas declarações sobre “arte moderna”.
A certa altura, quando questionado se se emociona com uma pintura declara: “Sobretudo com a pintura clássica. Com a pintura moderna não tanto. Não a entendo bem …”.
Entendo perfeitamente que se emocione com a pintura clássica e não com a moderna porque não a entende. Até aqui tudo bem…mas logo de seguida diz que tem a convicção de que muitos dos artistas plásticos modernos são trapaceiros, não têm jeito e fazem coisas disparatadas. Então se o ilustre advogado não “entende” a arte “moderna” como pode ter a “convicção” e dar opinião sobre o carácter dos artistas plásticos contemporâneos? Depois continua a dissertar sobre mesmo assunto (que ele próprio já tinha afirmado não entender) e aventura-se a dissertar sobre o que é e não é Arte!!! Diz que viu uma escultura mas depois questiona-se se era ou não e, no meio deste discurso, sai-se com a célebre frase “qualquer criança faz aquilo”. Por favor, haja paciência para ver isto nas páginas dos jornais vindo de uma pessoa que teve responsabilidades ao mais alto nível da hierarquia do Estado, personalidade marcante no processo de transição democrática e com uma larga actividade parlamentar.
Se estas palavras não tivessem vindo da parte do Dr. Almeida Santos, não me supreenderiam muito pois quem lida com arte contemporânea está habituado a ouvi-las frequentemente. Agora da parte do “Político e advogado”, deixam-me perplexa. Não estamos numa conversa de café e o Jornal Sol teve uma tiragem média em Junho de 67.632 exemplares.
Como agora já deve ter mais algum tempo livre até podia aconselhar este político a frequentar algumas actividades dos serviços educativos das instituições culturais para tentar entender a arte moderna. Também podia ler um livro (fininho que até já está traduzido para português) intitulado “A Origem da Obra de Arte” de Martin Heidegger ou, em alternativa, abstrair-se de dar opiniões sobre o assunto.
Só me lembro de uma frase recorrente sessões parlamentares, onde o Dr. Almeida Santos foi deputado durante tantos anos: “Não fale do que não conhece!”.
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Transcrição do excerto da entrevista referido:
“Mas emociona-se com uma pintura?
Sobretudo com a pintura clássica. Com a pintura moderna não tanto. Não a entendo bem e tenho a convicção de que muitos artistas plásticos modernos são trapaceiros. Não têm qualquer jeito para ser artistas e acabam por fazer coisas disparatadas. Uma vez fui ao Museu do Prado, em Madrid, e havia uma sala com quadros. Eram traços verticais com cores de um lado e do outro. Isto é arte? Talvez seja, mas está muito próxima da não arte. Qualquer criança faz aquilo. Depois, noutra sala, estava uma escultura que não passava de latas de cerveja empilhadas a um canto. Isto é uma escultura? Se é, eu não a compreendo”.